Brecha no Smart Sampa: vazamento de credenciais expôs 58 mil câmeras e revelou falhas críticas de autenticação

Uma investigação conduzida pelo jornalista Artur Rodrigues revelou que o maior sistema de videomonitoramento público da América Latina, o Smart Sampa, operou por quase um ano com sérias vulnerabilidades de segurança da informação. A exposição de credenciais e parâmetros técnicos em um repositório público na internet permitiu acesso irrestrito a mais de 58 mil câmeras da cidade de São Paulo, além de bancos de dados sensíveis de segurança pública.

O Vetor de Ataque: Repositório Público e Gestão Inadequada de Credenciais

Por cerca de 11 meses, um repositório de dados aberto na web manteve expostos arquivos que continham:

– 181 credenciais de acesso válidas (logins e senhas) de operadores e usuários autorizados;

– Dados cadastrais de mais de 6.000 agentes de segurança pública;

– Instruções operacionais e configurações que permitiam espelhar e reproduzir a plataforma de monitoramento em qualquer máquina conectada à internet.

Na análise técnica do incidente, ficou evidente a ausência de requisitos básicos de cibersegurança: as credenciais expostas não exigiam autenticação de dois fatores (MFA/2FA) para login na plataforma da fornecedora do software (Sentinelx). Além disso, diversas contas apresentavam padrões previsíveis de senha atrelados aos registros funcionais dos próprios agentes.

Prova de Conceito (PoC) e Superfície de Exposição

Para testar a integridade e o nível de blindagem do ecossistema, o repórter Artur Rodrigues utilizou as informações do repositório público e, com o apoio de um prompt de inteligência artificial, construiu uma interface funcional capaz de espelhar o sistema.

A exploração confirmou acesso direto a:

Transmissões ao vivo: Feeds de câmeras públicas e privadas conveniadas, englobando vias públicas e pontos críticos de alta sensibilidade, como creches, escolas, hospitais e centros de atendimento a dependentes químicos.

Dados cadastrais e registros: Consultas ativas por nomes, CPFs, placas de veículos e boletins de ocorrência.

Mapeamento tático de forças policiais: Visualização em tempo real da geolocalização e do deslocamento de viaturas e agentes, abrindo brechas para vigilância reversa por agentes maliciosos.

Especialistas em cibersegurança ouvidos pela apuração também identificaram que interfaces de ingestão de dados da plataforma não validavam adequadamente a identidade de quem remetia as informações. Essa vulnerabilidade permitia, em tese, a injeção arbitrária de dados no sistema, possibilitando a manipulação e o envenenamento das bases de alerta de reconhecimento facial e de placas.

Riscos de Governança, Supply Chain e Algoritmos “Caixa-Preta”

O caso expõe fragilidades críticas na gestão de fornecedores (supply chain security). A operação e os algoritmos de visão computacional estão sob responsabilidade de uma empresa terceirizada (Sentinelx). Documentos oficiais mostram que o poder público não possui controle sobre o código-fonte, os modelos de IA, as métricas de taxa de erro ou os datasets de treinamento, tampouco realiza auditorias técnicas independentes no software.

A ausência de governança de dados e de conformidade com os princípios de minimização e segurança da LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) agrava o risco operacional de um sistema de vigilância biométrica dessa magnitude.

O que diz a prefeitura

“A Prefeitura de São Paulo informa que não há nenhuma fragilidade nos mecanismos de segurança da plataforma do Programa Smart Sampa. O que houve foi um vazamento ilegal de dados por parte de um servidor entre os mais de 7.500 agentes de segurança. Ele já foi identificado, afastado e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana. Portanto, a Prefeitura reforça que se trata de um ato criminoso.

A reportagem do UOL ao acessar o sistema a partir de um vazamento ilegal tenta classificar o caso como falha na segurança, agindo, assim, com irresponsabilidade e desinformando a população. Importante destacar que não houve em nenhum momento qualquer uso indevido da plataforma.

O programa conta com a fiscalização do Tribunal de Contas do Município e consultoria especializada em governança e privacidade de dados.

O repositório de dados disponibilizado ilegalmente na internet foi retirado do ar pela Pasta e não havia nele menção a senhas de acesso. Ainda assim, a SMSU reforçou a segurança da plataforma, com senhas exclusivas e autenticação em dois fatores, entre outras medidas. O acesso também exige validação por código enviado por SMS para a criação de uma nova senha conforme os padrões de segurança.Maior sistema de monitoramento por câmeras da América Latina, o Smart Sampa encaminha semestralmente ao Ministério Público um Relatório de Transparência, já na 3ª edição. As obrigações contratuais preveem auditorias periódicas, testes de segurança, monitoramento, apresentação de relatórios técnicos e correção de eventuais vulnerabilidades. A Coordenadoria de Tecnologia, Integração e Segurança (CTIS), da SMSU, atua na supervisão e fiscalização da plataforma. O programa já contribuiu para a captura de 3.628 foragidos e a localização de 284 pessoas desaparecidas. Em relação às câmeras em equipamentos públicos, elas são instaladas em áreas de circulação comum, sem abranger consultórios, salas de atendimento ou ambientes assistenciais. A captação de uma imagem não significa que a pessoa tenha sido cadastrada ou identificada pelo sistema. O reconhecimento facial compara imagens captadas pelas câmeras com bases oficiais de pessoas procuradas, foragidas e desaparecidas.”.

Fonte: Uol

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